Como jogar por valor sem acertar o board

Quando começamos a jogar poker, especialmente quando ainda estamos no nível 1 de pensamento (leia nosso artigo sobre Níveis de Pensamento), temos a percepção de valor em nosso jogo ao encontrarmos conexão entre as cartas que seguramos e o board que se apresenta a nossa frente. Entretanto, a concepção de valor vai mais além. Leia este artigo até o final para entender quando se pode jogar por valor mesmo quando não conectamos ao bordo.

Disclaimer: este artigo propoe uma maneira de pensar a situação tratada. No poker muitas vezes não existe uma única maneira de jogar uma mão, portanto existem outras linhas que podem ser adotadas sem que estejam necessáriamente erradas. Aqui pensamos sobre uma dessas formas.

O que é valor?

Continuando com o entendimento acima: obviamente que quando suas cartas acertam o bordo, sua mão ganha valor, seja ele um 2º par, seja ele um full house nuts, ou mesmo um draw. Porém, não é só isso. Devemos levar em consideração também o range de mãos que nosso oponente segura. Em muitos spots, talvez esse fator seja ainda mais importante que a própria conexão com o board. Estamos falando de “percepção do range adversário”. Nível 2/3 de pensamento. É quando a coisa começa a ficar interessante.

Quando falamos “acredito que estou ganhando a mão”, na prática estamos querendo dizer que as nossas cartas, considerando o board apresentado e a forma como a mão foi jogada, vencem a maior parte do range de mãos possível que nosso adversário pode ter. Perceba que não é uma coisa isolada. Perceba que o significado de valor é algo que considera diversas variáveis: sua mão, o range do adversário, o board, as ações dos dois jogadores. Não está mencionado, mas está implícito: a relação entre os stacks envolvidos e o pote também deve ser considerada em algumas situações. Mas não falaremos disso aqui neste artigo.

Portanto, tudo deve ser considerado e quem quer ser um bom jogador de poker precisa ter esse conceito solidificado. É um pouco mais complexo do que parece. Mas nenhum bicho de 7 cabeças.

Sigamos.

Ok, e na prática?

Eu sabia que você ia perguntar isso.

Você se lembra que nós só acertamos o flop cerca de 1/3 das vezes? Isso vale tanto para nós quanto para nossos adversários. Portanto, em aproximadamente 66% das vezes, nosso AK ainda estará na frente no flop, mesmo que não acertemos o board. E isso muda tudo!

Obviamente que em potes multiway essa chance reduz sensivelmente.

Ter em mente um range de mãos o qual o vilão deve estar utilizando é muito importante.

Imagine um cenário onde você esteja jogando um SNG ou MTT. A mesa roda em fold até você que, no botão, recebe um AKs. Os blinds estão 100/200 e você sobe para 450. Big blind defende.

artigo-valor-sem-board

O flop nos mostra a seguinte situação:

artigo-valor-sem-board-2

Vilão opta pelo check e nós temos uma decisão a tomar: cbetar ou não. Nós não acertamos o board. Contudo, sabemos que o range do oponente também não acerta muito com as cartas apresentadas. Sendo assim, temos que saber o quanto estamos na frente nesta situação. Desenhemos um range padrão de mãos para o vilão, supondo que não tenhamos muito histórico dele.

artigo-valor-sem-board-3

Sabemos que esse range pode variar de jogador para jogador, ou de acordo nossa imagem à mesa… enfim. Alguns vilões 3betariam todos os pares, todos os Ases, todos os brodways. A título deste exemplo consideremos esse range, que, se não é perfeito, é razoável. Além disso o importante aqui não é o valor exato em si, e sim o conceito envolvido.

artigo-valor-sem-board-8

Contra este range, nós estamos na frente em mais de 66%. Portanto, nós temos uma mão de valor. As informações que temos do vilão podem nos ajudar a decidir. Um vilão que é muito calling station pode pagar uma cbet por valor com todos os Ases, os 56s e certamente com todos os pares. Contudo, todo o resto do range fraco dele folda.

Agora considere um vilão agressivo. Tomar um check/raise nos deixa numa situação desconfortável, especialmente se não estiver disposto a atolar com essa mão no flop mesmo. Uma opção interessante é dar check behind no flop e manter todo o range fraco/dominado dele no jogo.

Esta opção é boa também por outro motivo: controle de pote. Já vimos que temos valor frente ao range possível do nosso adversário, pero no mucho. Não temos uma grande mão. Temos uma mão com boa equidade. Portanto, não queremos inflar tanto o pote. Lembre-se: “Mãos grandes, potes grandes. Mãos pequenas, potes pequenos”.

Dando check behind no flop, você praticamente tem a obrigação de dar call em quase todas as apostas que o vilão eventualmente lidere no turn. A maioria dos vilões pode enxergar fraqueza nesse check behind e blefar quaisquer duas cartas. E como vimos, estamos vencendo em cerca de 2/3 das vezes.

” – Ah, mas ai você vai dar oportunidade para ele acertar a carta dele.”

Eu sabia que você ia dizer isso.

Ora, pequeno gafanhoto, é uma questão matemática. Se ele tem pares, tomamos call perdendo, então não há o que discutir. Porém, se ele tem duas cartas diferentes, a chance dele acertar uma delas e passar a nossa frente na mão é exatamente a mesma de acertarmos as nossas. O baralho está a nosso favor. Ele tem 6 outs, menos de 15% em cada street. Isso se ele não tiver um Ás ou um K na mão, situação onde as chances são ainda menores. Todo o resto do baralho é nosso. E se estamos com medo de jogar mesmo com a equidade ao nosso favor, esse jogo não serve para nós.

artigo-valor-sem-board-5

Optamos então pelo check behind. O turn nos trouxe uma Q e o vilão mais uma vez dá check.

Outra vez, se betarmos no turn, tomamos call de que mãos?

artigo-valor-sem-board-6

Com o range de call como o acima estabelecido, estaremos perdendo cerca de 71% das vezes. Portanto, também não faz sentido betar turn. Cbetar expulsa quase todo o range em que ganhamos e mantemos a maior parte do que estamos perdendo. Contra todo o range que estabelemos no flop, estamos ganhando a maior parte das vezes. Deixemos o range fraco dele no jogo. Não temos porque ter medo.

artigo-valor-sem-board-7

Damos check behind outra vez e o river nos trás outra Q. No geral é uma carta boa, mas com ressalvas. Agora todos os Ases que estávamos dominando splitam o pote conosco. Por outro lado, diminuem as chances de nosso adversário ter feito uma mão melhor que a nossa. O vilão sai atirando e nós temos por obrigação dar call de Ace high.

O bet do vilão é um bom sinal. Se ele tem um Ás na mão, ele sabe que praticamente só toma call perdendo ou empatando. Difícil encontrar jogadores tentando tomar call de K high num spot assim. É muito mais lucrativo para ele jogar de check/call no river com seu Ás, tentando induzir um blefe. Ou seja, o bet dele no river, na maioria das vezes, demonstra fraqueza. Se ele tiver uma Q, parabéns. Mas é improvável pela forma como a mão foi jogada.

Nosso check turn induz o oponente a blefar no river com quase todo o seu range possível. Ou seja, demos check por valor.

Para fechar: suponha que nossa mão neste exemplo fosse algo como 78s. Jogariamos da mesma forma? Certamente que não. Não temos valor de showdown e precisariamos levar o pote antes que ele aconteça. Provavelmente jogariamos por blefe, pois teriamos muitas mãos melhores que a nossa para expulsar.

Conclusão

Evoluir no poker significa a cada dia considerar uma nova variável diferente e dominar o comportamento dela. Perceber quando temos uma mão de valor mesmo sem conectar diretamente com o board significa que demos um passo a frente. Quer dizer que conseguimos entrar na cabeça do adversário, que identificamos corretamente o pensamento dele e a maneira como ele joga e raciocina. E essa é uma qualidade que os bons jogadores desenvolvem com a experiência e o estudo no jogo.

Não se deixe enganar pelos resultados. Em algumas situações, você irá dar aquele hero call de Ace high e se deparar com uma quadra, um full house e ficará perplexo. Ao jogar com a matemática ao seu favor, isso não quer dizer que você vencerá todas as vezes. Existe aquele percentual pequeno onde o vilão tem o improvável. Mas temos que entender que aquela é a exceção que confirma a regra. Que a decisão correta se apresenta no médio/longo prazo.

Para terminar, vejam esta mão onde Tom Dwan dá um lindo hero call de Ace high. Muito do que vimos acima é possível encontrar neste vídeo.

 

Deixe seu comentário sobre o assunto. Seria muito bom poder discutí-lo com você.

E se você gostou desse conteúdo, use a barra de compartilhamento abaixo e mande para seus amigos.

 


Cadastre-se em nossa lista de emails para receber esses e outros conteúdos em primeira mão.

Conheça nosso podcast. Escute nosso último episódio: Entrevista com Vinicius “Batovs” Collaço, ex Akkari Team

Ou então continue evoluindo no poker e leia nosso último artigo: Por que nós deveríamos abolir os micro limits?

Anúncios

3 pensamentos sobre “Como jogar por valor sem acertar o board

  1. Pingback: Como não ficar perdido diante de uma donk bet | RIT Podcast - Run It Twice - Poker

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s