Usando o All In Equity para acabar com o choro das bad beats de uma vez por todas

Já estamos cansados de ver e ouvir choros por causa de bad beat. Algumas das frases mais conhecidas para identificar chorões são: “Eu sou muito azarado”. “Nunca ganho com par de Ás”. “Minha conta não é regulada”. “Perco todos os flips”. Neste artigo irei procurar desmistificar de uma vez por todas o mito das bad bets. Mas já adianto: não, você não é mais azarado que o resto do mundo.

Seu cérebro é o culpado

O cérebro humano é “programado” para manter o corpo vivo, de variadas formas. Muitas vezes um “instinto de sobrevivência” fala mais alto e te livra de uma enrascada. É o cérebro agindo. Ele é capaz de identificar situações de risco e, quando essa situação se repete, ele entra em ação, como se dissesse “Ei cara, não vai. Já deu merda antes numa situação parecida”.

Além disso, outra função que o cérebro tem é economizar energia o quanto possível, também por questões de sobrevivência. E uma das formas de fazer isso é te fazendo esquecer do que não é tão importante. Entenda como uma “limpeza dos arquivos temporários” do seu HD.

Sabendo dessas duas coisas, conseguimos entender melhor porque lembramos muito mais das coisas ruins do que das coisas boas. Lembrar das coisas ruins nos faz estar sempre alerta, caso uma situação de risco apareça. O tal instinto de sobrevivência. De igual forma, esquecer memórias ditas “agradáveis” nos faz economizar energia.

E ainda: o cérebro tende a guardar na memória momentos em que houve muita emoção envolvida. Excesso de raiva, tristeza, alegria… Esses momentos ficam registrados, de modo que conseguimos “revivê-los” ao disparo de algum gatilho.

– Isso é um artigo de anatomia ou de poker?

Calma, pequeno gafanhoto. Chegaremos lá. Não estresse seu cérebro.

Maquiavel dizia que as notícias e atitudes ruins dos governantes deveriam ser dadas e executadas todas de uma vez, e  que as benesses ao seu povo deveriam ser dadas em doses “homeopáticas”. Talvez tenha alguma relação com essa forma do cerébro trabalhar.

Eu sei que você está entendendo onde eu quero chegar.

Qual foi a última vez que você quebrou um par de Ás de alguém? Nem se lembra, não é?! Mas tenho certeza que hoje mesmo você deve ter tomado aqueles 2 outs malditos no river.

Percebeu? Lembramos muito mais das paradas que tomamos que daquelas que vencemos. É o cérebro. Mas não vamos ficar nesse papinho de cérebro, energia e outras teorias da neurociência. Sigamos…

Volume e longo prazo, sempre eles

É quase consenso entre os jogadores de poker com um pouquinho de experiência que não se pode tirar conclusões de amostras pequenas. Os resultados podem acabar distorcendo a realidade. Mas qual são as amostragens ideais para análises de lucratividade e expectativa confiáveis?

Quando se fala em nível de buy in, alguns regulares gostam de partir de 1000 jogos para dizer se você de fato bate ou não aquele nível. Quando se fala nas stats de HUD durante o jogo, será que posso confiar naquele índice de 3bet de 15%? Já vi regulares de MTT que só confiam nas stats a partir de 500 mãos por adversário. De cash game, alguns só começam com 1000 mãos.

– Mas e quanto as bad beats que eu tomo? Tem como saber se sou ou não o bode expiatório dos deuses do poker?

Err… talvez sim.

Um dia desses Guilherme Chenaud, jogador profissional baiano, fez uma postagem muito feliz falando sobre a compensação no poker.  Nele, explica como você toma várias paradas e num belo dia, o gráfico tende a se equilibrar e você acerta tudo. Ganha os flips, dá baralhadas, acerta os draws e crava bons torneios. Leia aqui o post É preciso muita sorte, no site da Line Up. Vale a pena.

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O All In Equity

As considerações que faço aqui acerca da importância do All In Equity na análise das bad beats são pessoais. Não busquei de outro lugar, outro autor, outra fonte. Não vi um estudo sobre ela ainda, apesar de ter procurado. Apenas entendo que esta é uma variável muito importante para desmistificarmos a ideia de que somos muito azarados. Certamente existem outras. Aqui falarei apenas dela.

Quem usa algum HUD (Heads Up Display) para jogar poker online certamente já conhece esse gráfico. Quem não conhece, irá entender agora. Trata-se de um gráfico composto, geralmente, por duas linhas:

  1. All In Equity Value
  2. Total Winnings

Falando inicialmente do item 1. Se você está lendo esse artigo, com certeza já sabe algumas equidades do poker. O par maior contra o par menor possui em torno de 80% de equidade para vencer a mão. Duas cartas altas versus um par abaixo delas é praticamente um flip (50/50). Entre outras diversas situações. Pois bem.

O que esta linha do gráfico nos diz (a linha amarela acima) é qual é a expectativa dos seus all ins. Você foi all in num flip. 50% de equidade. O HUD joga lá. Em outra mesa você foi all in e tinha equidade de 60%. Ele joga lá também. E vai somando suas equidades. Simples, não é? Mas esta linha sozinha não diz tanto. Precisamos da outra para ter uma análise completa.

O segundo item é o Total Winnings, a linha azul da imagem acima. Como o próprio nome sugere, ele computa o total de ganhos que você teve em seus all ins. Ganhou 5 mil num flip? Ele joga lá. Perdeu 3 mil num flush runner-runner? O HUD lança lá também. E vai somando.

Você pode exibir os gráficos com essas variáveis apresentando resultados tanto em fichas como em big blinds. Ao meu ver, o gráfico em big blinds ilustra melhor o desempenho, uma vez que a percepção de perda ou ganho de 20 mil fichas, por exemplo, é diferente se o big blind blind estiver em 500 ou em 4 mil.

– Ok, entendi. Mas como isso me ajuda a entender se sou azarado?

Eu sabia que você iria perguntar. Irei explicar com um exemplo.

Derrubando seu disjuntor

Imaginem um jogador de sit and go hipotético. E seu nome hipotético é Rafael :D.

Rafael não é um hard grind, mas joga SNG com regularidade. Ontem ele jogou e tomou várias paradas, muita bad mesmo. Rafael se sente muito azarado. O mundo é cruel com ele. Este é o gráfico de all in equity da sessão de ontem.

A linha de equidade de all in dele estava em quase 240 bb up. No entanto, o total de bbs ganhos, ou melhor, perdidos neste caso, estava em quase -40bbs. 280 bbs de diferença. Um desastre completo. O mundo persegue Rafael.

Mas ele lembrou do que dissemos acima. A amostragem é importante. Pelo gráfico acima, essa foi uma sessão curta, apenas 850 mãos. Precisamos de um volume maior para saber se ele é mesmo azarado. Então ele pegou 1 semana de grind.

Melhorou um pouco na questão do volune. Agora temos 2600 mãos jogadas. Porém, ele continua sendo mesmo azarado. Ainda está, segundo o gráfico, no ferro de mais de 200bbs. Malditos all ins! Estaria a teoria dele confirmada? Ele já pode sair reclamando nos grupos de Whatsapp e Facebook, ou nos intervalos de torneios live o quanto ele perde? Como ele é chato, resolveu ir mais além, afinal quanto maior o número, mais credibilidade tem sua reclamação. Pegou então um mês de jogo.

Agora são 9500 mãos. Mas Rafael começou a ficar com vergonha do chororô. As linhas estão bastante próximas agora. Não pode mais dizer nem que perdeu nem que ganhou. Ele ficou com uma pulga atrás da orelha. Pegou então 6 meses da sua base!

Alguém arruma uma máscara para Rafael sair na rua. Ele não pode mais olhar na cara de seus amigos de poker. Em quase 55 mil mãos, ele está ganhando 1500bbs acima da sua equidade de all in! Foda-se, agora ele quer saber do último ano.

Rafael quer ir no cartório mudar seu nome da certidão de nascimento. Mais de 110 mil mãos e a vergonha aumenta no mesmo ritmo que sua linha de Total Winnings. Agora são 2 mil bbs acima da linha do all in equity. Hora de repensar seus conceitos.

Religando o disjuntor

Você já ouviu isso outras vezes, mas é preciso repetir até internalizar: o jogador de poker precisa entender a dinâmica do jogo de poker. Sem isso, jogar poker será mais estresse do que diversão e principalmente, do que ganhos.

O All In Equity acima é apenas uma variável analisada. Esses gráficos não nos contam o quanto ganhamos ou perdemos em situações sem all in. Não nos mostram quanto deixamos de ganhar numa situação própria para explorar a bolha. Não nos mostram o quanto pagar a 3bet pré flop com uma mão duvidosa e largar para cbet foi -EV. Mas ele serve para abrir nossos olhos para o vitimismo.

Se tornar um bom jogador poker não é um objetivo com fim em si mesmo, é um processo. E sem data pra terminar. Parar de reclamar é uma das habilidades a serem conquistadas. Mas isso só é possível se você entende como o poker funciona. Se ainda chora, é porque ainda não entendeu. A palavra chave é volume. Só ele poderá te dizer se você é ou não “um cara de sorte”.

Mas uma coisa eu posso te garantir: quanto mais você estuda sobre o jogo, mais suas as linhas amarelas sobem. E, por consequência, as azuis também.

Fica a reflexão. Se tem um amigo chorão, mande esse artigo para ele. Quem sabe ele não para de chorar e começa a entender o jogo onde coloca dinheiro todos os dias.


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Ou então continue evoluindo no poker e leia nosso último artigo: Como não ficar perdido diante de uma donkbet

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3 pensamentos sobre “Usando o All In Equity para acabar com o choro das bad beats de uma vez por todas

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